1/05/2009

DOS AMANTES PERDIDOS

"E a morte perderá o seu domínio.
Nus, os homens mortos irão confundir-se
com o homem no vento e na lua do poente;
quando, descarnados e limpos, desaparecerem os ossos
hão-de nos seus braços e pés brilhar as estrelas.
Mesmo que se tornem loucos permanecerá o espírito lúcido;
mesmo que sejam submersos pelo mar, eles hão-de ressurgir;
mesmo que os amantes se percam, continuará o amor;
e a morte perderá o seu domínio".
(Dylan Thomas)


Após a juventude – os ensaios - de outrora, encontrei-me novamente com sua essência. Fragmentos de nossas almas se dissipavam mutuamente com as cinzas espalhadas pelos habituais tabagistas. Evitando-se, olhares fixavam-se nas silenciosas latas de lixo, que insistiam em estarem presentes naqueles instantes. Tal como em “Annie Hall”, ocultando sentimentos verossímeis e verdades incontestáveis, optamos por preservar uma amizade inesperada.
Um fim certamente indesejável, mas, um fim.

Imagem do dia: Os amantes- René Magritte

FAUSTO, THE WOLF

"Deus, como se sabe, desde que o roubaram dos pobres e o trancaram nos mais diversos palácios das mais diversas religiões, tornou-se um sócio do mercado. Deus está presente em nossas vidas todos os dias - uma tradição pesada demais para ser descartada. Como a vida, para a maioria, se resume em vaidade e autopiedade, qualquer dor de dente nossa - ocasião em que apelamos para Ele - é muito mais importante do que a morte de centenas de milhares de crianças no Iraque. Jamais me preocupei muito com a existência de Deus, pois a sua existência, ou sua não-existência, não muda nada. E se Deus existe, certamente não está preocupado com meus pecadinhos. Eu talvez venha a pedir explicação dos seus pecados."

"Ontem de madrugada, enquanto crianças morriam de fome no Brasil e de bala na Rússia e na Bósnia, eu cantarolava músicas nossas enquanto elas pousavam como passarinhos no meu coração. Infelizmente, faltaram-se alguns engradados para não lembrar de todos os autores. Desculpem, mas estou triste."
(Fausto Wolff)


Ignorando as palavras, os doentios humanos, a anestésica força do tempo: O velho lobo pede desculpas e dorme.

Meses após sua morte, tento expressar o imenso vazio originado por sua ausência em uma existência irrecorrivelmente condenada. Encontrei-me casualmente com Ziraldo em um restaurante árabe; após cumprimento inicial, não pude deixar de fazer referência ao venerável Wolff. Este (Zirado) o resumiu em uma inolvidável frase: “Foi um grande amigo”.